Ambição de estagiários extrapola a cadeira de CEO

Interesse dos jovens de hoje por propósitos mais amplos do que a ascensão profissional exige adequação das companhias para engajar novos talentos

 

Mais que um cargo: para especialistas, autorrealização é o que move jovem que chega ao mercado hoje
Foto: Dreamstime

São Paulo – O sonho dos jovens de classe média nos anos 70 de fazer carreira em uma empresa não é unanimidade entre quem ingressa no mercado de trabalho hoje. A nova geração busca propósito no que faz e prefere experiências em várias companhias a se apegar a um emprego.

“A carreira dentro de uma empresa demora muito mais do que o jovem quer esperar, pois é uma geração que tem pressa e quer uma velocidade que essas companhias não oferecem”, diz José Antônio Prudente de Siqueira, sócio-diretor da consultoria Wiabiliza.

Para ele, os jovens procuram empresas que ‘tenham a cara deles’ e por isso acabam migrando até encontrar algo que os satisfaça. “Antigamente essas pessoas buscavam apenas estabilidade. Hoje em dia elas querem ser felizes e procuram isso em diferentes empresas, por isso são menos fiéis ao local em que trabalham”, diz.

Segundo Marina Pontin, gerente da Red Consulting, especializada em recrutamento, seleção e desenvolvimento de executivos, o foco dessa geração não é mais trabalhar muito para gerar resultados e evoluir em cargos. O objetivo passou a ser qualidade de vida, com equilíbrio entre vida profissional e pessoal, deixando o lado financeiro em segundo plano.

Envolvimento e motivação

Pouco se sabe como essa mudança de pensamento se deu ao longo dos anos, mas o momento atual mostra que essa faixa etária não se dedica tanto a esse tipo de trajetória. Para Siqueira, da Wiabiliza, a nova geração tem dificuldades para trabalhar em cima de projetos que não sejam próprios e não está disposta a se submeter a muitas regras, o que leva a uma grande rotatividade.

“Devido ao volume de informação disponível hoje em dia, os jovens acham que estão mais preparados do que estão realmente, daí a ideia de não querer acatar decisões de seus superiores. Eles acreditam que têm uma flexibilidade tão grande que não precisam se sujeitar a isso”, diz ele.

De acordo com Marina, da Red, essa geração já nasceu conectada e não vivenciou nenhum tipo de mudança em relação a um mundo com mais tecnologia. “Com isso, esses jovens adotaram uma postura imediatista e se acostumaram a uma resposta rápida para tudo. Isso reflete diretamente no mercado de trabalho”, afirma.

O diretor técnico da Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística, Edson Carli, diz que essa nova visão foi construída a partir da relação dos jovens com os pais. “Em algum momento – durante os anos 70 e 80 – os pais se sentiram na obrigação de proporcionar tudo para os seus filhos, como uma forma de resgatar uma frustração que tiveram quando mais jovens.” Segundo ele, isso fez com que essa geração se tornasse menos dependente do mercado de trabalho para ter seus bens, e sua motivação se tornou “apenas” a autorrealização.

Desafio para as empresas

Acompanhando essa mudança, as empresas também precisam se adaptar a esse novo perfil de funcionário para formar suas equipes, criando ambientes mais modernos, com jornadas de trabalho mais flexíveis, lideranças participativas e modelos alternativos, como, por exemplo, o home office.

Grandes corporações ainda apostam em programas de estágio e trainee para formar profissionais em seu próprio ambiente. Alguns desses programas são ultradisputados, como o da Ambev. Para Fabíola Higashi Overrath, diretora de desenvolvimento de gente da fabricante de bebidas, o método de recrutar pessoas recém-saídas das universidades ainda é a melhor maneira de preparar futuros líderes.

“Nossa filosofia é formar o profissional dentro da empresa, valorizando o seu desenvolvimento. Através de desafios e integração dentro da companhia, acreditamos que o funcionário se sinta importante vendo que foi investido tempo e dinheiro nele”, explica.

Segundo ela, esse modelo faz com que os jovens deixem de migrar pelo mercado em busca de algo com que se identifiquem mais e vivam essas experiências em uma única empresa. Ao rodar por diferentes ambientes dentro da Ambev, o profissional pode encontrar sua melhor área de atuação, afirma.

“A cultura de meritocracia mantém os funcionários sempre motivados e deixa claro para eles o quanto seu trabalho tem ligação com a entrega final”, defende.

Marco Bissi
27/04/2016 – 05h00

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