Plantar é preciso

A Agricultura de Precisão alcança patamares surpreendentes e sua adoção por muitos agricultores tem se espalhado com relativa agilidade no meio agrícola

Com a modernização do setor, a produtividade alcançada tem sido determinante nas lavouras e incentivado a busca de recursos técnicos sejam eles mecânicos, de engenharia que envolve pesquisas e estudos constantes, aos tecnológicos, os quais quando conjugados, fazem com que nossa produção cresça ano a ano, se sofistique cada vez mais e mitigue riscos e baixos resultados.

A produção de grãos (soja, milho, sorgo, arroz, café, açúcar, entre vários outros) tem o grande desafio de conviver com preços oscilantes próprios de commodities que atuam nos mercados mundiais de larga escala. Neste ambiente a precisão na leitura de várias variáveis e decisões bem posicionadas se traduzem em sucesso ou fracasso, podendo até mesmo comprometer a estabilidade das empresas e valor de seus ativos. A necessidade constante de buscar garantias de qualidade e produtividade, impactadas até mesmo por influências do “El Niño” induzem Agricultores a se aparelharem com todo o tipo de ferramentas para obtenção de resultados.

Sob a visão de economizar em insumos, investimentos e adotar contingente de mão de obra racionalizados, há um funil que deve ser cuidadosamente estudado, para que as medidas e decisões a serem tomadas  não sejam mais sobre áreas totais plantadas mas já circunspetos a espaços menores, como talhões, tornando a produtividade e qualidade dos produtos maior e os riscos do negócio menor ou pelo menos sob controle. Neste crescimento de alternativas, helicópteros estão sendo utilizados para aplicação de insumos melhor endereçados com base em estudos que esquadrinham a lavoura e a delimitam por talhões que receberão aplicações precisas e composição certas. Comparar resultados entre safras já não é mais a melhor medida, o importante é medir a capacidade de produção e se ter o domínio de técnicas que indiquem procedimentos exatos para o crescimento de produtividade contínuo de um mesmo talhão e lavoura, evitando-se estresses.

Manter profissionais, técnicos e engenheiros, que busquem uniformidade das lavouras para maior produtividade, operando controles, realizando planejamento e adotando sistemas de gestão de recursos técnicos e humanos, que detectem, por exemplo, pragas, façam leitura de solo de suas características físicas, químicas e de compactação, doenças, ervas daninhas, etc., além da aplicação de fertilizantes certos, nas medidas certas, na prática ainda demandam longo aprendizado, tentativas e erros. Manter a mão de obra comprometida, que entenda sua importância desde o planejamento do plantio até a colheita, só acontece quando as lideranças (do Presidente ao Líder de frente de trabalho) estiverem falando a mesma linguagem. Aqui outro enorme desafio.

As empresas têm dificuldades em encontrar profissionais qualificados e com competências necessárias ao trabalho que desempenharão. Desempenho é outra agrura do empregador. Nossos índices de retrabalhos e perdas de matéria-prima são muito altos, encarecendo os produtos e nos tornando menos competitivos quando se busca mercado liderados pela excelência. Dois outros fatores também sacrificam a qualidade da mão de obra: primeiro, o nível de desempenho dos líderes é aquém do demandado, visto que suas qualificações estão baseadas, por vício de visão, em ser o melhor executor. Segundo, não receberam treinamento para se tornarem líderes, portanto, sob esta ótica, estão longe de liderarem com eficiência, de forma que agem por instinto, podendo ser um facilitador, quando dá certo (raros casos) ou ser um cobrador, que não domina técnicas de orientar e minimamente dar retornos sobre o desempenho de cada subordinado (conhecido como “feedback”). Como os subordinados não sabem onde apresentam deficiências (também conhecido como “gaps”) ele continua sempre a fazer mais do mesmo até ser substituído ou preterido a uma promoção quando a empresa preenche a posição com alguém do mercado.

Lideranças que não lideram, elas também não delegam, mas sim “delargam”, expressão utilizada que reflete um líder ausente ou desconhecedor de seu real papel, para que os resultados pretendidos das equipes de trabalho sejam alcançados.

Constantes trocas de funcionários causam perdas, baixa produtividade e desestímulos do comportamento de pertencer à empresa para prezar por ela, antiga expressão de “vestir a camisa”. Esta rotatividade (turnover) custa muito caro às empresas e se considerarmos que para cada troca de funcionário, ao somarmos gastos médios de uma Admissão e sua Demissão em prazo inferior a 12 meses, teremos:

 

ADMISSÃO: custo médio entre ações de mapear mercado,  recrutar novo funcionário, entrevistas, testes,  perda de produtividade até a admissão de novo Colaborador, tempo de adaptação, entre outros fatores, apura-se

De:  1,0 a 1,5 Salário Nominais

DEMISSÃO: custos com verbas rescisórias, descarte de EPI’s, descarte de uniformes, etc..

De:  2,0 a 2,5 Salários Nominais

TOTAL

3,0 a 4,0 Salários Nominais

 

Se multiplicarmos o número de vagas causadas pela rotatividade, certamente o valor será bastante significativo, passando desapercebido pela empresa, a qual muitas vezes entende que este custo faz parte do negócio. Seguramente este custo deve ser visto como perda de resultados e ao conseguir diminuí-lo fará boa diferença no resultado da empresa.

Cabe aqui entender que investir em Pessoas pode ser um fator de economia, na adoção de práticas de gestão de RH, como: políticas de salários adequadas, possibilidades de carreira Interna, ferramentas de avaliação de desempenho e competências de cada colaborador, remuneração variável, como incentivo a obter resultados melhores para o colaborador e empresa. Treinar líderes é outra vertente que deve ser encarada de forma apropriada como estratégia de controle de custos com a mão de obra, a qual não se pode esquecer é uma das mais caras do mundo, quando se soma salário + encargos sociais, o que acrescenta cerca de 50 a 70% em empresa agrícolas e em torno de 100% em setores indústrias.

É comum encontrar neste mercado empresas que não enxergam viabilidade para esta área, entendendo que só se aplica às grandes organizações. Este é um viés que precisa ser reconsiderado e corrigido, até pelos valores envolvidos com a folha de pagamento que certamente não é baixa. Com políticas e ferramentas de gestão de RH corretas, por exemplo, se evita erros até ao se definir um título de cargo. Se, por descuido, utilizar a nomenclatura de assistente na qual cabe o de auxiliar, estaremos empurrando o salário para cima, significando gastos a mais em cerca de 20%.

Adotar políticas e estrutura adequada para RH vem se tornando importante, tanto quanto investimentos de infraestrutura e equipamentos. Sem as pessoas, os melhores processos, equipamentos e recursos não são nada. A área precisa ter postura pró-ativa, se relacionando com os gestores e atuando como facilitador entre eles e os colaboradores na busca conjunta de resultados. Pessoas mal direcionadas e sob estresse produzem menos, causam danos ao ritmo das operações, tornam-se suscetíveis a riscos e acidentes, aumentam os custos da empresa, incluindo quedas nos resultados.

A agricultura de precisão exige compostos de visão clara do negócio e nível de especialização que irá desaguar na formação técnica por cultura agrícola, como se fossem médicos que “fatiaram” o corpo humano e promoveram especialistas em cada parte, para que o diagnóstico fosse preciso evitando a mortandade de pacientes. Se extrapolarmos para a agricultura, a letalidade pode acontecer numa safra ruim ou pior numa sequência de safras com resultados negativos, comprometendo a existência da operação e sustentabilidade da empresa.

Outros recursos, que já vem sendo incorporados por empresas além dos sistemas de gestão e controles, referem-se a processos e desenvolvimento de suas lideranças.

Processos, como fator de gestão, detêm o poder de avaliar fluxos de trabalhos, encurtá-los e racionalizar tarefas para ganhos de produtividade. Premissas como determinar a quantidade certa de recursos a serem alocados em cada operação, relativos a matérias primas, infraestrutura, sistemas de informática até a quantidade adequada de pessoas em cada cargo, fazem a diferença nos resultados. Mapear todas as operações, administrativas e operacionais e, gerenciar esses processos significa fazer mais com menos. Empresas que vêm adotando esses caminhos têm colhido economias que refletem diretamente nos negócios. Insumos e mão de obra impactam significativamente nos lucros, portanto, adotar conhecimentos para manter um equipamento operando no limite de sua eficiência e capacidade e, com mão de obra treinada, consciente de suas metas fazem a diferença e geram ganhos médios de 10, 15 até 20% de rendimento superior, conforme constata-se em vários estudos e publicações técnicas.

Para que esses recursos de gestão funcionem, entra em cena outro elemento importante, mas muitas vezes subjugados a segundo plano, cuja postura pode ser de facilitador ou até mesmo o de perturbador para que o planejado aconteça, que é o líder.

Para esta posição estratégica, esteja ela no menor ou maior nível hierárquico, a escolha certa fará total diferença, entretanto, se convive com um velho vício, o de se escolher o melhor técnico ou ainda o mais velho da equipe para ocupar o posto, como se este critério garantisse passe seguro para ser um bom líder. Erro crasso, que não deve ser cometido, o qual leva invariavelmente as empresas a não alcançarem o rendimento esperado e ter dificuldades em detectar onde reside o problema. Outro conceito que deve ser abolido é que o Líder nasce pronto, com se fosse um fator genético, uma variável da personalidade. Raramente isto acontece e ainda assim o líder precisa ser desenvolvido e treinado sempre para que saiba entender, trabalhar e atuar sobre principalmente o comportamento de sua equipe, uma vez que é por meio dela que também alcançará os resultados que lhe foram delegados.

Saber lidar com as diversidades humanas, seus aspectos psicológicos, comportamentos e visão geral de mundo se aprende e se pratica, buscando obter o melhor resultado de cada um. Usar a expressão “feedback” quando se comenta com o liderado sobre aquilo que ele faz bem, é fácil, o necessário é abordar de forma correta aqueles “gaps” que ele tem e precisam ser estimulados a reparos, eis aqui o difícil e que quase sempre é relegado a auto compreensão do colaborador, o qual quando não entende que apresenta deficiências ou ainda não sabe corrigi-las por falta de observação e apoio, é mandado embora, gerando gastos para a empresa como o de turnover, já citado.

Gestão da Agricultura de Precisão se traduz num conjunto de variáveis e movimentos em constante mutação frente às especializações e desafios que vão sendo demandadas, num dos setores que mais transformaram o Brasil, colocando-o entre os maiores produtores de alimentos e também de combustível renovável do mundo.

 

Jorge Ruivo, Wiabiliza Consultoria Empresarial

Deixe um comentário

Erro! Este email não é válido.